" ei, eu sou mais importante do que você imagina... "
Preconceito: juízo preconcebido, manifestado geralmente por atitude descriminatória.
Pobreza: estado ou qualidade de pobre. Falta do que é necessário para viver. Escassez.
Egoísmo: hábito ou atitude de colocar os seus interesses em primeiro lugar, em detrimento de terceiros.
Após a ressaca do Reveillon, o ano já começou quente. E não me refiro ao tempo. Está cheio de assunto - muitos bastante violentos - para se comentar.
As enchentes no Espírito Santo e as centenas de famílias desabrigadas; a rebelião de Pedrinhas e a falência do sistema penitenciário no país; a cara de pau do clã Sarney dizendo que o Maranhão cresce; a criança sendo queimada em ônibus no mesmo Estado; a suposta pulada de cerca do presidente francês ... e o mais recente acontecimento... o fenômeno do rolezinho.
Imagina a cena: centenas de jovens com seus tênis novos, bonês de marca, camisetas da moda... entrando ao mesmo tempo num dos templos do consumo e da futilidade... um shopping center.
Eles falam alto, gesticulam... brincam e ... observam.
Esses encontros foram marcados pelas redes sociais. E após a adesão de centenas de jovens, adolescentes... o que a imprensa mostrou foi... de um lado a polícia descendo o sarrafo em muitos desses meninos que corriam pelos corredores do templo da ilusão... e de outro lado, o terror, o medo estampado na cara das pessoas ( consumidores de outro tipo de droga. As pilulas da felicidade! )
Ora... há muitas opiniões rolando por aí. Muita gente falando muita coisa. Gente que conhece, gente que só dá palpite... e aqueles que querem espalhar o fogo.
Esse aqui é um espaço aberto. Então, eu tenho todo o direito de expor e ... compartilhar minha opinião. Não quero catequizar ninguém. Mas, acho que esse acontecimento traz à baila temas muito sérios, que precisam ser discutidos de maneira imparcial.
Pra gente começar a pensar nesse fenômeno Rolezinho ( abreviação de rolê: volta, giro... passear por aí ), eu te convido a ir lá atras... na sua juventude.
O que é que você fazia pra se divertir aos 14, 15 anos?
Se você for como eu - tá ficando velha - jogou tó tó, Atari, amarelinha, barra manteiga, se esburrachava ladeira abaixo no skate do primo, ia ao cinema, teatrinho e por aí vai.
Era bom, né? Dá saudades daquela época, né? Brincar na rua, sem se preocupar com o calçado ( você também usou Conguinha? ), com a roupa, com o penteado... nada que um bom banho no fim do dia pra resolver a questão.
Éramos jovens, adolescentes numa época que, talvez não houvesse drogas no bairro onde morávamos, haviam famílias com pai, mãe, irmãos... cobrança de responsabilidade.
E quando aparecia aquela gatinha ou gatinho no bairro, ou na escola... como nos exibíamos pra conquista, não?
Não tinha celular, torpedo, curtida em facebook. No máximo, um correio elegante!
Mas o tempo passou, nós crescemos, e hoje muitos de nós, temos as mesmas preocupações que nossos país tinham conosco, só que com os nossos filhos.
E qual é a diversão para os jovens desse século XXI?!
Atari? ... só existe em museu.
Amarelinha? ... diga isso a uma garota e ela confundirá com a cor de algum esmalte novo.
Barra Manteiga? TóTó? ... que isso, nome de aplicativo de celular?
Não! ... nossos jovens são mais evoluídos do que nós pensamos. São estratégicos! Não precisam dessas coisas.
Hoje em dia, o barato... e pertencer ao grupo ( algo diferente da nossa época? ), é chamar a atenção. Gritar... de uma maneira sutil, inteligente, virtual... que não está legal.
Os centros de consumo, os envidraçados Shopping Center, tomaram o lugar das ruas, dos parques, das praças.
Centros de consumo recolhem mais impostos do que árvores e bancos de praça, né?
A boneca, perdeu lugar para a calça jeans que promete empinar o bumbum da menina recém saída das fraldas, e que custa um preço absurdo, às custas de trabalho escravo em confecções clandestinas que sustentam bolivianos pelo país, por exemplo.
O tal tênis Mizuno de mil reais - eu não consigo entender como um calçado pode custar tanto. Só de material não tem nem 10% disso. É preciso seguro de vida pra andar com esses tênis? ... e o que um par de mil reais faz de diferente pra tua vida? ele dança sozinho, vai no supermercado e busca as crianças por você?! - tomou o lugar da barra manteiga, do tótó.
E ... não entorte o seu nariz, porque ... nós permitimos isso.
A vida mudou, o custo de vida aumentou ( nem entremos nesse mérito! ), os prazeres foram se modificando com o passar do tempo... e o que era cool há 30 anos atras, hoje... é coisa de "tio".
O grande barato... é sim ir ao shopping. O grande barato... é sim, usar as redes sociais, que se popularizaram, mas marcar presença.
E enquanto milhares de pessoas, com seus vidros fumês, com suas bolsas de marca e toda a sorte de esquisitices pra ser aceito ( por quem? ) divertiam-se nesses centros de consumo, foram surpreendidos pela chamada "confusão", um multidão de "vândalos", "marginais" e ... "pobres" querendo roubá-los.
"... como fere e faz barulho o bicho que se machucou...", né? Já diria Oswaldo Montenegro.
Só não dá pra saber quem é que tá mais machucado... as madames que se queixam da ausência de tranquilidade nas ilhas de ilusão... ou os jovens - alguns revoltados com o preconceito, com essa gente esnobe - se articulando numa aparente ideia de apenas... "se divertir".
Uma ova! Pra mim, foi uma baita sacada dessa garotada... pra gritar pro mundo todo ouvir... "olha eu aqui... eu também sou gente. Eu sou igual a você!".
Excessos sempre tem. De ambos os lados.
Ou é a polícia, mal paga e despreparada... que se exalta e puxa o cacetete... ou são os jovens - exaltados por natureza, sem educação e respeito - que os enfrentam, na mínima impressão de repressão.
E essa situação já não estava anunciada há muito tempo?!
... Porque é que um garoto que vive na periferia... rouba um par de tênis - que dança e faz pirueta sozinho - por mil reais... se tem par de tênis mais simples em casa?!
Porque é que uma garota sai de casa quase nua, pra ir rebolar em algum baile funk, e se mostrar para os "bandidos" dos pedaço?!
E porque é que centenas de milhares de pessoas... julgam esse tal rolezinho... como uma barbárie, como uma afronta à sua tranquilidade?!
Meu caro .. toda vez que você paga mal seu empregado que tem filhos; ou toda vez que você compra o tal tenis que voa e solta pipa por mil reais para alimentar a sua vaidade ...; ou toda vez que você deixa bem claro que é diferente "dessa gente"... o que é que você acha que tá criando pra você?
Somos herdeiros... de nós mesmos!
Nós criamos os rolezinhos... pela nossa incapacidade de conversar, educar, dar atenção e amor aos nossos jovens.
Eles são muito mais importantes do que nós imaginamos. E eles sabem disso.
Por isso... eles estão ... "gritando" nos rolezinhos.
Pensemos nisso!
Em 2000, houve uma manifestação num shopping do Rio de Janeiro.
Esse movimento se tornou o documentário Hiato, com depoimentos e análises de filósofos, antropólogos e dos próprios "atores" da manifestação.
Observe... com seu coração!