quarta-feira, 6 de março de 2013

O último choro

O último choro 



Logo cedo, líamos na mídia a notícia que o vocalista da banda Charlie Brown Jr - o Chorão, fora encontrado morto em seu apartamento na zona oeste de São Paulo.

A comoção foi geral. Crianças, jovens, maduros. Tantos comentários nas redes sociais, como uma forma de homenagear esse homem de 42 anos, reconhecido por suas letras incisivas, com apelo urbano, social bastante forte.
Chorão, um menino de Santos - São Paulo, trazia na música um pouco da realidade de nosso país.
Suas percepções iam além das letras e dos shows. Várias obras sociais eram patrocinadas por ele.
Mais sério que muito empresário fajuto por aí, que políticos, artistas, gente da mídia que aparece quando é conveniente, quando é ... "pra Globo".

Enquanto a polícia investiga a possível overdose do cantor, prefiro dividir com você que parou pra ler essas linhas, um tema que há muito me instiga... porque as pessoas consomem drogas.

A OMS reviu anos atrás essa questão da dependência química e considera a partir de então como doença ( tem CID ) o consumo frequente dessas substâncias.
O adicto - aquele que consome a substância - para ser tratado, requer uma equipe de médicos, psicólogos e psiquiatras. Essa é uma doença bio psico social, que demanda tempo e custo elevado.

Meses atrás, numa tentativa do governo de São Paulo, de retirar das ruas usuários de crack, anunciaram um programa de internação forçada dessas pessoas.
Para quem não está familiarizado com o tema, o tratamento de um dependente químico consiste no seu isolamento da sociedade por um período inicial de aproximadamente 40 dias. É quando a ausência da substância no organismo começa a trazer de volta os primeiros sinais da auto estima.
É o chamado período da abstinência.
Após esse período ( se ele conseguir suportar ), é que entram os trabalhos com terapeutas, psicólogos, médicos e psiquiatras. Essa processo leva em média 6, 8 meses, onde o adicto retoma o contato consigo mesmo. Vai lá no fundo... tentar descobrir o que o levou ao uso da substância, e ... diante desse enfrentamento consigo mesmo, se recupera, se reergue e ... sai, vem pra "ressô" - ressocialização, enfrentar a sociedade que o oprime, o descrimina, não o compreende.
Todo o processo é lento, doloroso e dispendioso.
A pergunta que faço ( e que a mídia já começa a mostrar a resposta 2 meses após o início dessa ação ) é ... o governo está preparado pra gastar tanto tempo e dinheiro com essas pessoas?
Retirá-las das ruas por algumas semanas, para depois trazê-las novamente para a sociedade sem uma estrutura familiar, sem um emprego... não será mais gasto de dinheiro público, num retrabalho sem fim?

Essa é uma das perguntas que deixo no ar... pra reflexão.

Mas, o que leva uma pessoa ao uso dessas substâncias?
Ausência de limites, más companhias, fragilidades, insegurança, medo, angústia, tristeza, raiva... todos esses são sentimentos limitantes da criatura humana, todos nós podemos tê-los.
Alguns, a ponto de recorrer a essas substâncias como forma de fuga do enfrentamento da realidade.
Enfrentar a realidade dói, machuca! Amadurecer, assumir seus erros e escolhas é um processo doloroso. Mas necessário!
Mais dia menos dia, a vida apresenta as situações que precisam ser enfrentadas. É assim pra todo mundo.

O uso e o abuso dessas substâncias, fatalmente termina em um dos 3 "c"s - caixão, clínica de recuperação ou cadeia. Mas todo dependente químico acha que pode controlar tudo. Não percebe que se deixa controlar.

E a sociedade tende a hostilizar tudo o que não compreende.
Aquele que faz uso dessas substâncias, quando chega no nível de dependência elevado, dificilmente encontra compreensão, acolhida.
São familiares que não compreendem feridos que estão no seu ego de co-dependentes; são os "amigos" que se vão, são as pessoas queridas que se afastam... e por aí vai.

Em uma das várias palestras que tive que assistir pra colaborar na ONG, me recordo de um exemplo que nosso terapeuta contou, de um empresário bem sucedido, viciado em cocaína, em SP.
No auge da crise, chamaram o terapeuta para acompanhá-lo durante a remoção para a clínica. E, antes de entrar na ambulância, o empresário cuspia na própria mão, como forma de sentir novamente o cheiro e gosto da cocaína nas suas narinas.
Não era um favelado, nem um marginal. Era um grande empresário, respeitado, com "alto garbo e elegância".
Penso que a droga é mais uma dessas coisas que nos nivelam a todos por baixo. Assim como a dor, o medo, o sofrimento. Tanto o rico quanto o pobre sentem dor, sentem medo.
Há os que enfrentam. Há os que fogem.
Somos todos... humanos, vivemos numa sociedade.

E pra mim, se um não ajudar ao outro, de que adianta? Que mundo criaremos para nossos filhos? Que exemplo daremos para nossas crianças? "- olha, pense primeiro em você, segundo em você e terceiro no seu bolso. Se sobrar tempo, pense no outro, mas só naquele que poderá te dar algo em troca, ok?!" - criaremos monstros, não seres humanos dessa forma.

Se confirmado a overdose de Chorão, esse foi mais um dos talentosos artistas que perderam a vida de maneira trágica, assim como Elis Regina, Renato Russo, etc...

E que a morte desse rapaz reacenda o debate na sociedade sobre o consumo das drogas ( e todos os fatores implicantes disso como tráfico, armas de fogo, etc ) e o fim comum de tudo isso.

Chorão ajudou em vida a muita gente. E poderá continuar ajudando... ao levantar essa bandeira da conscientização de que qualquer droga ( cigarro, álcool, remédios, etc ) não pode conduzir a um caminho seguro... tampouco... feliz.

Só a um caminho de muito ... choro.



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