Quem é escravo de quem?
Escravo: Adjetivo ou substantivo masculino. Que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o comprou ou aprisionou. Que ou quem está na dependência de outro.
Realezas e criados sempre foram figuras marcantes da história da humanidade. E ainda guardamos o esteriótipo original disso tudo, com as poucas monarquias pelo mundo. Vá a Windsor, na Inglaterra, e verá o que é Palácio de uma rainha... e a quantidade de empregados que ela possui. Todos pagos, é claro, com os impostos.
Mas com a modernidade, o progresso - e a sensibilidade de algumas pessoas corajosas - a escravidão foi abolida, os escravos libertos pra seguir suas vidas, progredir.
Ainda que hoje em dia vejamos situações de "semi escravidão" em países populosos da Ásia, África, e mesmo nos rincões do Brasil, nas roças. Ou com o tráfico humano de pessoas - tão bem demonstrado na ficção.
Talvez as ferramentas tenham mudado, mas os traços de barbárie, desmandos de poder, o egoísmo e a ganância infelizmente, não.
Nesta semana, uma notícia chama a atenção. A quantidade de empregadas domésticas no Brasil diminuiu.
( e será que as casas continuam limpinhas, organizadas, roupas limpas e passadas, e a comida cheirosa na mesa?!)
Por meio de uma PEC - Proposta de Emenda à Constituição ( mais uma de tantas! ) - a categoria reivindica direitos semelhantes aos dos demais trabalhadores, como recolhimento de FGTS, jornada de 44 horas semanais, e outros benefícios, que serão votados pelo Senado nos próximos dias.
Seja pelo aquecimento do mercado ou pela melhora na educação do trabalhador, os antes domésticos, agora começam a migrar para outras atividades, aprender novas funções.
E os dados são sérios... enquanto o IPCA aumentou 6% nos últimos 12 meses, o custo de uma empregada doméstica foi quase o dobro disso, 12% no mesmo período.
Segundo o IBGE ( mensurando as 6 regiões metropolitanas ), houve uma queda de trabalhadores domésticos de quase 3% nos últimos 2 anos.
Até tema de novela elas viraram. As empreguetes - grande sacada sócio cultural da TV Globo!
Natural! Humano! As pessoas querem progredir, evoluir, crescer pessoal e profissionalmente. E isso é inerente à condição humana, e não a quantidade de dinheiro ou status que se possua.
A economia como um todo só tem a ganhar com isso nos próximos anos. Ainda que muitas madames torçam o nariz.
Agora é normal ver pessoas reduzindo seus gastos mensais, se readaptando à condição de arrumar a cama todos os dias, limpar a casa, lavar e passar suas próprias roupas, ir ao supermercado, levar as crianças no colégio, e por aí vai. Como nossas avós faziam, e nem por isso eram menos felizes.
Realidade essa já bastante comum em países de economia mais madura, como na Europa.
Por lá, ter empregados domésticos ( aí inclui babás, jardineiros, motoristas, etc ) todos os dias da semana é luxo, ostentação, desnecessário.
Nas minhas caminhadas diárias, gosto de observar o comportamento das pessoas e, num exercício de não julgar mas compreender o contexto, vejo dezenas de moças vestidas de branco, empurrando carrinhos de bebês, nas pracinhas da cidade, enquanto algumas mães às acompanham mais distantes, preocupadas com temas diversos com as outras amigas, ou estão longe dali.
Vou ao supermercado e noto outras moças, empurrando carrinhos pesados abarrotados de produtos, enquanto suas "patroas" circulam por entre as prateleiras.
Nada contra! Cada um faz o que quer com o que ganha!
Quem trabalha fora, tem pouco tempo para os afazeres domésticos, e naturalmente poderá precisar de uma força, uma ajudinha. Mas... há de se pensar no exagero, na ostentação, na preguiça... além da falta de respeito ao ser humano.
Observo isso e as vezes me pergunto: - quanto será que uma moça dessas ganha por mês? E se um dia os empregados se rebelam - cansados de serem diminuídos - e resolvem não ir trabalhar, como vão fazer? Vão... deixar por fazer?
... Mas e aí? ... quem se tornou escravo de quem?
Nosso país vive um momento próspero - apesar de tanta corrupção e mau uso do dinheiro público - e torço para que essa situação não desvirtue as condições básicas de sobrevivência do ser humano, que as pessoas não se tornem tão dependentes do exterior, das aparências ... e de outras pessoas para conseguir sobreviver.
Meus pais sempre me ensinaram a arrumar minha própria cama desde pequena. E não me agradaria perceber que hoje em dia eu não saberia mais fazer isso... porque, outras pessoas poderiam fazer por mim.
Facilidades viciam, entorpecem! E via de regra, quando acabam... enlouquecem aquele que se habituou a ser somente servido!
Novos tempos... tempos de fato modernos ( até nosso Papa é moderno e humilde! ).
Ou se adapta na arrumação da própria cama... ou ... dorme no chão.
Compartilhando, um texto escrito em 2010 sobre a escravidão do alto consumo. Ótimo pra reflexão!
bjs moçada!
30/10/2010 | MULHERES PELO MUNDO | ATUALIDADES, CULTURA |
Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos
Nossa convidada de hoje da seção Mulheres no Mundo.
Adriana Setti
No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.
No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.
Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.
Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.
Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.
Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.
Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.
Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves, tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).
Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.
Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.
Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).
É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte dosavoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.
PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

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