Ao mestre com carinho
O tempo passou e claro que eu esqueci a letra do hino do colégio de freiras que estudei toda a minha infância.
Mas a lembrança da vida dentro de um dos colégios mais tradicionais de São Paulo... permanecerá na minha memória pelo resto da vida.
Hoje é dia dos Professores!
Dia de gente que ensina ... gente! E... dia do profissional menos valorizado no Brasil, o tal ... "país do futuro".
Fecho os olhos e consigo me lembrar com clareza da Madre superiora - Irmã Geny Eiras; e das freirinhas que andavam pra cima e pra baixo, pelos corredores daquele prédio centenário, de olho nas alunas mas travessas.
Numa época onde não havia drogas, baladas ( estava começando as discotecas mais "moderninhas" na cidade ), quando o ato mais transgressor que uma aluna podia fazer era... fumar escondido, experimentar um copo de cerveja, ou ficar no muro do colégio, paquerando os garotos que passavam. - eu sempre fui a mais baixinha da sala, nem que eu quisesse, conseguiria fazer isso.
Todo cuidado era pouco! Com a roupa ( uma camisa de linho com o nome do colégio bordado no lado esquerdo do peito, uma saia na altura dos joelhos e uma meia 7/8 que incomodava pra burro, especialmente em dias de calor), com os cadernos e livros. Tudo devia estar impecável!
E os tênis... ahh... os tênis! ... eram devidamente inspecionados pela tia Ivete, uma senhorinha que naquela época, devia ter mais de 70, logo no portão de entrada do colégio, todo santo dia.
E se não estivessem limpinhos, brilhando de brancos... voltávamos pra casa, sem assistir as aulas, com advertência na mochila.
Uma vez transposta a 1º prova do dia ( a do uniforme ), logo no portão de entrada do colégio, chegar na sala de aula e esperar o professor era uma cena a parte.
O professor entrava e ... todos nós tínhamos que nos levantar pelo lado direito da carteira e, em coro dizer:
"Boooom diiiia, Mestra Fulaaaaana".
E lá vinha a resposta: "Bom dia, classe!".
E ... nós ficávamos lá, em pé, até a professora mandar sentar.
Era o momento perfeito para a professora circular por entre os alunos, e ver quem tinha feito a lição de casa, quem estava com a roupa devidamente asseada...
Dia da Bandeira? Semana da Independência? ... Lá íamos nós para o páteo do colégio, cantar o hino, hastear a bandeira, num lindo ( ainda que nem todas as crianças compreendessem! ) ato cívico.
Civilidade! Aprender desde cedo que éramos responsáveis pelo país onde vivíamos, que seríamos o futuro do Brasil!
Aulas de religião ( com a madre superiora e sua cara de poucos amigos que metia mais medo do que as próprias histórias da igreja ), aulas de filosofia, aulas de Organização Moral e Cívica... coisas que esses jovens de hoje sequer imaginam o que seja.
Semana passada, num ato que mobilizou mais de 50 mil pessoas no Rio de Janeiro, vimos professores sendo agredidos pela polícia, com gás de pimenta, bombas de efeito moral... porque reivindicavam aumento de salário, e a correção do plano de carreira imposto pelo governo.
A Câmara do Rio de Janeiro virou uma espécie de bunker, onde a polícia descia o sarrafo pra defender a vontade do glorioso prefeito Paes, sobre a reivindicação do sindicato dos professores, em greve há mais de 50 dias.
Ehhh... é assim que hoje em dia, os "alunos do início dos anos 80" tratam seus professores. Triste, não?!
Eu me lembro que meu pai fazia das tripas o coração, para pagar aquele colégio caríssimo todo mês.
E eu sempre o ouvia dizer... "eu posso não deixar nada pra você, filha. Mas ... você terá uma boa educação!". Muito obrigada, pai!
Hoje, olhando pra sociedade que se formou no nosso Brasil varonil... pra essa juventude com pouco referencial, que já nasce com o dedo num tablet ( tecnologia é muito bom, mas... sem base, torna-se perigosa! ), que mata por causa de um celular último modelo, que não tá nem aí para a dor, o sofrimento dos outros... e, que não sabe quem foi Machado de Assis, Eça de Queiroz, Castelo Branco... fico triste e preocupada.
Nessa democracia tacanha, onde os ricos ficam cada dia mais ricos ( às custas de conchavos, politicagem, corrupção, desvio de dinheiro, sonegação fiscal, etc ) e os pobres, mais miseráveis ( dependentes de 70 reais por mês - um disk pizza - tema de um texto anterior deste mesmo blog ), ... criaturas que não tem minimamente noção da história do país e do mundo, tampouco o que vem a ser civilidade, respeito ao próximo... votam! Escolhem seus representantes políticos!
Representantes estes que, recebendo robustos salários e benefícios, liberam verbas vergonhosas para pagamento de professores ( o teto de um professor hoje no Brasil beira R$1500,00! Você viveria com 1500 por mês?), que faz campanha eleitoral, mas vira o rosto para escolas em conteiners, em chão de terra batida, sem carteira pra criança se sentar, nos rincões desse país!
Pensando nesse dia dos professores, me pego refletindo...
Será que apenas aumentando os salários desses profissionais abnegados, seria suficiente para modificar toda uma estrutura obsoleta, de décadas do mais profundo desrespeito ao "amado mestre"?
Será que, um sujeito que se formou, estuda por prazer, por paixão... que tem uma enorme boa vontade e um sonho de ver um país melhor... se sentiria motivado apenas porque seu salário aumentou um pouco?
E ... as crianças? E as salas de aula, sem carteira? E a tal da merenda escolar, contaminada? E os livros didáticos, sem a devida fiscalização, que chegam nas mãos dos pequenos, com erros crassos?
Aumentar os salários dos professores é questão de respeito ao ser humano. Dignidade!
Mas... melhorar as condições de todas, todas, todas as escolas desse país... para que as crianças sintam prazer em dizer "estou indo pra escola, aprender a ser gente de bem"... isso sim é fundamental!
Se isso vai se dar com o dinheiro do "pré sal", do "pós sal"... pouco me importa! Os políticos federais, estaduais e municipais são pagos pra pensar em como fazer isso. Se comprometeram com isso, disseram que o fariam, durante a campanha política.
O que eu quero é ainda acreditar que nosso país - aquele que meus mestres no colégio diziam que era o Nosso País - seja melhor, mais humano. Um bom lugar pra se viver!
Feliz dia dos Mestres então!

Que tal relembrar o hino? ;)
ResponderExcluirHino do centenário do Colégio São José
(Cecilia Anastácio Pereira)
Este hino que alegres cantamos
É um hino de amor a este teto
A esta escola que nós tanto amamos
E que sempre fez juz a este afeto
Para os mestres que aqui ensinaram
Para os mestres que hoje aqui estão
Pelo muito que nos dedicaram
Nosso canto traduz gratidão
Salve, salve, Colégio querido
És um templo de ciência e de fé
A ti o preito de amor merecido
Dos alunos do Pai São José
Salve, salve, Colégio querido
És um templo de ciência e de fé
A ti o preito de amor merecido
Dos alunos do Pai São José
Hoje és grande, és escola afamada
Tua glória já é secular
E prossegues a meta traçada:
Instruir e também educar
Ensinando verdades das ciências
Tu ensinas vivaz juventude
Para guia das jovens consciências
Tens o lema "Labor e Virtude"
Salve, salve, Colégio querido
És um templo de ciência e de fé
A ti o preito de amor merecido
Dos alunos do Pai São José
Salve, salve, Colégio querido
És um templo de ciência e de fé
A ti o preito de amor merecido
Dos alunos do Pai São José