O sertão vai virar mar, dá no coração...
Quem se recorda do clássico Sobradinho, escrito em 1977 pela dupla Sá e Guarabira?!
Contam eles que, durante uma caravana pelo sertão pernambucano, souberam da construção de uma barragem "clandestina" na região, que prometia levar água pra onde não havia.
Remanso, Casa Nova, Santa fé... cidadezinhas que desapareceriam.
A letra ficou linda! Mas a obra... a água... o progresso... passaram longe!
Esse texto não é pra falar sobre música. Antes fosse!
Trata-se da matéria publicada ontem no jornal The New York Times, sobre o atraso na construção da Transnordestina - a ferrovia que passaria pelos estados do Piauí, Ceará e Pernambuco, com promessa de entrega para 2010, e que até hoje... está só na promessa.
Qualquer semelhança com as obras inacabadas e atrasadas para a Copa do Mundo e Olimpíadas, não é mera coincidência.
Em se tratando de Brasil... isso é padrão! E pior... o mundo todo tem visto isso!
A ex senadora Marina Silva lembrou em texto recente no jornal Folha de São Paulo... que o RDC - Regime diferenciado de contratações - trata-se de mais um retrocesso político, econômico e ambiental que favorece as "negociatas" entre governo, parlamentares e empresas, e propicia casos como o da Transnordestina.
Um dos pontos mais polêmicos dessa nova ferramenta do governo é a chamada Contratação Integrada.
Com o pretexto de ganhar agilidade nas obras públicas, ela deixa a cargo das empresas contratadas as decisões quanto ao método de construção, os materiais necessários e o plano da obra.
O governo fica como mero "bedel" do processo.
Aliado a um orçamento sigiloso, totalmente avesso a licitação tradicional, e de um planejamento nulo,sem datas justas de entrega, isso era a gota que faltava pra irrigar não o sertão do país... mas o bolso dos corruptos, das empresas sem ética, que sempre molham a mão de parlamentares, superfaturam materiais... no velho jogo do toma lá, dá cá, que realimenta todo o processo da corrupção.
O sistema... favorece a demora! O atraso que virou... "padrão Fifa" brasileiro!
O nome do vídeo publicado pelo The New York Times - um dos jornais mais lidos no mundo - tem cheiro de... ferro. "Brasil trilha caminho da expansão à ferrugem".
"... a expansão econômica brasileira possibilitou grandes projetos de construção para empoderar seu interior pobre. Mas enquanto a economia esfria, muitos estão inacabados, deixando um legado de divisão e deslocamento."
Só no sertão do Piaui, as obras da Transnordestina já consumiram mais de R$1 bilhão de reais dos cofres públicos, e estão nem na metade, 4 anos após o início.
Centenas de famílias foram "convidadas a se retirar de suas casas", e onde antes haviam máquinas trabalhando, derrubando tudo o que viam pela frente... hoje tem apenas trilhos, dormentes e tubulações abandonadas.
Nem alimento dá mais naquelas terras! Nem calango suporta viver por lá!
Já entre Missão Velha e Porto do Pesem, no Ceará, apenas 4% das obras foram concluídas. Pra 4 anos de investimento... a proporção tá um pouco baixa, né? Em ritmo de que?
E a tão sonhada obra que ligaria o porto de Pecém ao Porto de Suape em Pernambuco, passando pelo sertão do Piauí... que agilizaria o escoamento da produção, estimulando o progresso da nação... permanece na promessa.
Com o perdão do trocadilho... o sertão não virou mar, o mar não virou sertão, e sim um grande cemitério de obras inacabadas, enferrujadas, que não levaram nem água, nem progresso... as centenas de milhares de eleitooooores que moram ali.
Abaixo... link do vídeo publicado pelo NYTimes.
http://nyti.ms/1o5Fyfz
E também a música Sobradinho, escrita há mais de 30 anos, na voz do grupo Biquini Cavadão, pra embalar nosso voto... nas eleições de outubro.
Dói!

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