domingo, 7 de setembro de 2014

Quem é o doente?

Sociedade 

Homem infectado, capturado na rua, após ter fugido para procurar comida. 
"O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso."
Madre Teresa de Calcuta

Um dos assuntos que mais me chamou a atenção e martelou na minha cabeça a semana toda foi a captura de um doente infectado pelo vírus Ebola, na Libéria, África.

Há alguns meses, o mundo viu milhares de africanos mortos pelo vírus Ebola, que assolou alguns países do continente africano, sendo que 10% dos mortos foram os médicos e voluntários que estavam no oeste africano trabalhando para ajudar a população.

Para a OMS, essa epidemia é a mais severa de toda a história da doença, que causa hemorragias graves e é transmitida pelo contato direto do sangue e fluídos corporais de pessoas ou animais infectados.

E esse surto foi ocorrer...na África! Continente pobre, com um povo de costume peculiares para o resto do planeta.
Lá... a população costuma lavar a abraçar os cadáveres antes de enterrá-los, o que os expõe ainda mais ao contágio com o vírus.

Um vírus que destrói vidas e também, costumes, o respeito e interesse ao próximo.

Um dos capturados com o vírus, na Libéria... após ficar dias sem comida dentro do hospital já super lotado... fugiu, em busca de alimento em uma feira livre.
E ... talvez a cena mais chocante de toda essa angustia foi ... a de médicos e voluntários cassando o homem já franzino pela fome e pela doença, como se fosse um bicho, no meu das pessoas na rua.
Ao pegarem o rapaz, atordoado, aqueles mesmos homens encapuzados e protegidos do contágio o jogaram dentro de um caminhão com um destino... incerto.
E o povo... que assistia a tudo... corria do homem, como se fosse um animal selvagem, e não ... um doente.

Aí...eu te pergunto... quem é o doente? O homem... ou a sociedade, que não quer o contágio?

A cena foi tão chocante... que as autoridades do mundo todo pediram aos líderes dos países que tratassem seus doentes com humanidade.

Quem se lembra do caso daquela criança com uma doença de pele, que foi impedida em embarcar num avião que ia de Brasília para Belém, porque a tripulação achou que era contagioso?
Quem se lembra como o Brasil tratava os portadores de Hanseníase - a lepra - até pouco tempo atrás, confiando essas pessoas em locais e cidades fantasmas, condenadas à própria sorte?

Pra mim, a ignorância - com o desconhecimento das questões - alimenta o medo, o pavor e o egoísmo de proteger apenas você e quando muito, os seus. Os outros? Danem-se os outros.
E a imprensa... ao invés de disseminar as informações sobre a cura, disseminam e apavoram mais com informações sobre ... a doença.

Isso tem um "que" de idade média, né? Quando o Brasil nem existia.
O pavor de ser infectado - e não ser mais aceito pela sociedade - sobrepõe a qualquer sentimento e atitude de civilidade, fraternidade, generosidade.

Você pode me dizer agora: "ah, Celinha... mas aqui, no Brasil, hoje não temos mais isso". E eu te pergunto... "Será?"

No caso da lepra por exemplo, a violência com os doentes diminuiu unicamente porque a doença está sob controle e é tratável.
Quando os 1º casos de aids surgiram no país, no início da década de 80, o pavor sanitário de ser infectado... se alastrou, obrigando muitos doentes a se esconder, aumentando o risco à própria vida.

A estigmatização, o preconceito e o abandono a quem tem algum problema de saúde ( seja contagioso ou não!) ... é um sintoma evidente de que... quem está doente ... é a sociedade!

Na Bíblia, um dos hansenianos foi Lázaro, que tinha como seu único amigo que lambia suas feridas e comia no mesmo prato que ele... um cachorro.

O africano que foi capturado essa semana pelos homens de amarelo, e que foi ignorado pela população aflita que assistia a cena impassiva... não tinha sequer um cachorro pra chamar de ... amigo.

Já há experimentos para a cura da doença - um médico voluntário americano tomou o remédio e parece curado! - mas mesmo que se encontre a cura o mais rápido possível, e outras centenas de vidas sejam salvas... a pergunta que fica é ...

Quem é que está doente?


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